Numa pesquisa chamada “Você Conhece Seu Cérebro?”, perguntei a 2000 cariocas, entre outras coisas, se eles concordavam que “utilizamos normalmente apenas 10% do nosso cérebro.” A metade concordou. Fiz a mesma pergunta a 35 neurocientistas, e somente 2 concordaram. O veredicto? Essa estória de usar 10% do cérebro é nada mais do que um mito.

 

Vamos deixar claro logo do começo: não há qualquer razão científica para supor que usemos 10% do nosso cérebro. Nem 10% dos seus neurônios. Nem 10% da sua capacidade. Todas as evidências sugerem o contrário: usamos nosso cérebro INTEIRO. Os 10% ficam por conta da imaginação de quem conseguiu convencer quase metade da população do Rio a aceitar esse mito.

 

Por que tantas pessoas aceitam essa idéia dos 10% do cérebro? Talvez porque à primeira vista, essa estória parece muito convidativa. Se usamos 10% do cérebro, então temos 90% de reserva, que se conseguirmos aprender a usar, poderíamos ficar até dez vezes mais inteligentes, memorizar dez vezes mais fatos, fazer contas dez vezes mais rápido… Tudo balela.

 

E o que é pior, com gravíssimas conseqüências. Quem acredita que 90% do seu cérebro são dispensáveis não tem porquê evitar choques à cabeça usando capacete na motocicleta ou cinto de segurança no carro. Quem não sabe que usa seu cérebro inteiro a todos os momentos ainda não pôde realmente apreciar a maravilha que tem dentro da cabeça, e fica susceptível ao assédio de livros e cursos que se auto-denominam “científicos” e pretendem ensinar “como usar os outros 90%”. Espalhar o mito de que usamos 10% do cérebro ou da sua capacidade é um dos maiores desfavores que a mídia já fez ao homem e à ciência.

 

Quais 10%?

 

Para entender por que a estória dos 10% é balela, primeiro é necessário esclarecer de que 10% estamos falando. Se são 10% da massa cerebral, 90% do que temos dentro da cabeça devem então ser dispensáveis. Se são 10% dos neurônios, os outros 90% devem ser silenciosos, ou então redundantes, servindo só como “reservas”. Ou se são 10% da capacidade de desenvolvimento intelectual… será que alguém sabe o que seriam os 100%?

 

Em qualquer dos três casos, toda a evidência científica está do outro lado. Lesões do cérebro, mesmo pequenas, têm conseqüências graves ao intelecto e ao comportamento. Também é possível “escutar” as células nervosas em atividade, e em sua grande maioria, e em quase todo o cérebro, é possível identificar algum aspecto do mundo ou do comportamento animal relacionado.

 

Quanto às potencialidades, não é simples tentar estabelecer um limite de o quê o cérebro pode ou não conseguir fazer. Mesmo porque várias vezes um limite parece ter sido atingido, só para então ser ultrapassado graças a uma mudança de estratégia - exatamente como no caso de atletas de competição.

 

100% não são o limite

 

Se usamos toda a capacidade do cérebro, como é possível então desenvolver nossas habilidades? A resposta está na propriedade mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos. Embora a transmissão não possa ser mais rápida, sua eficiência pode aumentar (até um certo limite, mais uma vez!), ou diminuir. Quando aumenta, a conexão entre dois neurônios fica “fortalecida”; quando diminui, a conexão fica “enfraquecida”. Além do mais, cada conexão não é fixa; uma conexão enfraquecida demais pode ser eliminada, e sempre dentro do que um neurônio pode suportar, uma nova pode ser feita em outro lugar, com outro neurônio. Fortalecer essas novas conexões, estabilizando-as, é uma maneira de criar novas associações. Os neurocientistas hoje estão convencidos de que é esta a base do aprendizado. Como sempre se pode tirar uma conexão daqui e criar outra ali, será sempre possível fazer mais uma combinação, mais uma associação entre neurônios, e aprender mais alguma coisa. Talvez nem sempre fique tudo na lembrança; talvez seja mesmo necessário esquecer algumas coisas para poder lembrar de outras. Não importa. Aprender, a mais nobre função do cérebro, não funciona a 10%, nem a 100%, nem a 1% da sua capacidade. Não há limite. Simplesmente funciona. (SHH)

 

Leia o artigo completo.

 

http://www.cerebronosso.bio.br/o-mito-dos-10-do-crebro/

 

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Autor:
admin
Data:
segunda-feira, novembro 24th, 2008 ás 14:18
Categoria:
Neuropsicologia
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