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set
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Uma busca interior em psicologia e religião

 

 

“Só perdida a vida do homem que viveu tão iludido pelos prazeres da vida, ou pela sua tristeza, que jamais se tornou eterna e decisivamente consciente de si mesmo como espírito… ou (o que é a mesma coisa) que jamais se tornou consciente – e, no sentido mais profundo, que jamais teve um vislumbre – do fato de que existe um Deus, e de que ele, ele próprio… existe diante desse Deus, cujo grau de infinitude jamais é alcançado senão através do desespero.” Soren Kierkegaard

 

Encontros humanos e conexão interior

 

A energia psíquica que está ligada à idéia e a imagem de Deus não desaparecem pelo simples desejo da consciência. Sob que formas essa energia indestrutível está reaparecendo agora na psiquê? Sob que formas ela se apresenta na sociedade moderna?

 

 

A vida é o que ocorre nos relacionamentos com as pessoas.

 

Os problemas humanos não são coisas que as pessoas têm, mas que elas são. O problema é o próprio indivíduo.

 

Todo aconselhamento tem sombras. A psicologia clínica se inicia a partir do interior do psicólogo.

 

O encontro começa não apenas com as projeções da pessoa que vem em busca de ajuda, mas também com as intenções treinadas e organizadas do “ajudador”. A terapia do outro começa com a minha.

 

Carregamos nossas necessidades interiores para o trabalho de ajudar o outro. Nossas necessidades interiores nunca se ausentam. Necessidade e vocação não diferem muito entre si. Essas necessidades se tornam prejudiciais quando não percebidas, pois se juntam ás sombras do aconselhamento. Elas podem se transformar em exigências. Exigências pedem satisfação, necessidades precisam apenas de expressão.

 

Mesmo não sendo capaz de responder minhas próprias dúvidas, sou capaz de ajudar a responder as suas. Embora não consiga me compreender, posso ajudar a você compreender-se. Essa reciprocidade torna possível a doação e o amor.

 

O desejo de intimidade com o outro, quando não percebido e não considerado dentro do contexto da vida do “ajudador”, poderá se transformar numa exigência em relação às outras pessoas. Isso o torna ultrarevelador e extremamente pessoal, resultando no término da hora terapêutica que vira confissão mútua. A curiosidade pode ser o faro para mexericos e escândalos que se aplica em uma vida mal vivida ou vivida através das experiências dos outros.

 

É preciso ouvir a si próprio, enquanto se ouve o outro. O ouvido é a parte feminina da cabeça.

 

É preciso permitir ao inconsciente (Si-Mesmo) seguir seu próprio caminho em um tempo que lhe é adequado, sem tentar montar através da curiosidade a história de um caso que venha a responder a um “porque” inicialmente colocado.

 

Os pormenores dos acidentes de uma vida, a não ser que sejam representativamente simbólicos, nunca serão essenciais para a alma.

 

O principal impedimento de conhecer o outro é exatamente o desejo de conhece-lo.

 

A finalidade da confissão é a purificação.

 

A pessoa não é nem uma doença nem um problema, mas sim um mistério fundamentalmente insolúvel.

 

Minhas perguntas não serão causadas pela curiosidade, e o meu conhecimento também não será o resultado de uma observação fria.

 

Deixando de lado as técnicas de interrogatório, livramos o interlocutor de ser identificado com suas respostas, de ser aprisionado à história de seu caso ou de sentir-se culpado pelo que disse. A entrevista, redimida do seu aspecto inquisitorial, transforma-se em encontro.

 

Quando alguém penetra muito rapidamente, com a ajuda de testes, entrevistas ou solicitação de confissões, a distância natural poderá ser facilmente fraturada, liberando a reação de ataque ou fuga.

 

Deus onipotente e onipresente estava em todo lugar. Ele preenchia o universo com o seu ser. Como então seria possível o ato da criação? Não por emanação, Deus brotando de si mesmo, pois não haveria espaço, e caso houvesse, seria imperfeição de Deus, um lugar vazio onde ele não existisse.

 

Segredos compartilhados constroem a confiança, que doma a reação de ataque ou fuga no problema da distância.

 

Apenas um amor assim (ativo) desfaz o medo, mas ele não depende nem de nós e nem da nossa vontade. Ele está além do toque direto da terapia, pois a terapia se situa exatamente na sombra desse amor, como se todo encontro humano morasse em um segredo, como se a sombra de todo aconselhamento fosse à escuridão de todo amor.

 

Na verdade, eu posso amar dando plena força, em nível exterior, ao meu sentimento, mas se por acaso a ligação vertical com a base de minha existência interior e com o amor por mim mesmo ainda não estiver formada, eu terei, então, despertado um amor que não pode agradar.

 

Para estar em contato com você, é necessário que eu esteja em contato comigo mesmo.

 

A ligação mais interior é o contato que duas pessoas têm a partir de dentro de sua profundidade individual, pois se eu estiver ligado a esse momento, agora, assim como ele se apresenta realmente, estarei também aberto e ligado a você.

 

Vida interior: o inconsciente enquanto experiência

 

A imagem ou experiência interior de Deus não é única e nem sempre a mesma. Ela sofre transformações ao longo da vida, diferindo de uma pessoa para outra.

 

A religião vivida como experiência nasce da psiquê humana, sendo por causa disso um fenômeno psicológico.

 

A partir do momento que Nietzsche declarou que Deus estava morto, e que Freud achou que a religião é uma questão ilusória, a psicologia vem cada vez mais estendendo os seus domínios em detrimento da teologia, reclamando mais e mais partes da ama como pertencentes aos seus territórios.

 

O problema de muitos religiosos é encontrar a conexão interior com a vocação, e depois mantê-la viva.

 

Nunca o ministro foi tão verdadeiramente um membro do rebanho, como no momento em que as ovelhas se mostram tão perdidas quanto o pastor.

 

Um novo ministro e religioso está em gestação.

 

Foi pelo inconsciente que muitas pessoas encontraram um caminho para o amor, a religião, e adquiriram um certo senso de alma.

 

O inconsciente se revela através de: esquecer e lembrar, dos hábitos, dos atos falhos, da experiência de associação de palavras, nos estados de transe, dos complexos, dos sonhos, dos sintomas e dos fenômenos da sincronicidade.

 

Em sociedade, encontramo-nos frequentemente a mercê do inconsciente e de seus complexos, quando nos esforçamo-nos para impressionar os outros, em nossas tentativas de distanciamento ou ao fazermos exigências tolas.

 

É por essa razão, e não por interesses religiosos disfarçados, que o analista acaba se envolvendo tanto com problemas de religião. Não somos padres fracassados que não seguiram a vocação certa.

 

O modo peculiar que a análise tem de modificar uma pessoa e a evidência dessa mudança (sob a forma de “cura”) é surpreendentemente aos modelos da religião.

 

A análise começa com: recolhimento, purificação, renovação, conversão ou renascimento e testemunho.

 

A humilhação dos sintomas é uma das maneiras de nos tornarmos humildes, e essa é a característica tradicional da alma.

 

A conexão interior com o inconsciente conduz novamente a um senso de alma, a uma experiência de interioridade, um local para onde os significados retornam.

 

Encorajando o sonho a contar a sua história, dou-lhe oportunidade de apresentar a sua verdadeira mensagem, seu tema mítico, aproximando-me, dessa forma, dos mitos que atuam em mim, de minha verdadeira história vista por dentro, ao invés de anotar a história de um caso visto de fora.

 

Se eu fujo, ele me persegue. Se eu me coloco muito acima, ele é um abismo a meus pés. Se sou nobre demais, ele me manda sonhos indecentes. E se eu lhe voltar as costas, ele me atrai e tenta fazer-me olhar de novo, valendo-se de imagens sedutoras.

 

Eu ganho alma ao vivenciar o inconsciente.

 

A escuridão interior: o inconsciente enquanto problema moral

 

Existe uma discrepância natural que se origina entre a moralidade que se prega e a que se pratica.

 

Parece que enquanto tentamos iluminar, buscar a verdade e fazer o bem, um lado oposto cresce com a mesma intensidade.

 

Na mentalidade popular, quem está no púlpito deve identifica-se com a moral, e quem senta na cadeira do analista deve apoiar o ID e o desejo desenfreado, sendo, portanto contra a moral. E como é escuro aí dentro.

 

A mulher começa a ver o que fez ao marido durante todos esses anos por puro egoísmo. Ela apenas se interessava pelo interesse dele por ela.

 

Mas no inconsciente descobrimos que altruísmo exagerado é hipocrisia e compensação, quando o tipo adequado de egoísmo fracassou.

 

Amar a si mesmo não é coisa fácil exatamente porque significa amar tudo dentro de si, inclusive a sombra, onde somos inferiores e socialmente não aceitos.

 

Ele não conseguia distinguir suficientemente o paradoxo do lixo em decomposição ser também fertilizante da infantilidade, ser também espontaneidade infantil, da perversidade polimórfica ter um lado de alegria e libertação física e de poder, o mais feio dos homens, ser o redentor dentro de um disfarce.

 

Entretanto, a verdadeira revolução que está se operando na alma individual não é tão sexual quanto psíquica e simbólica, é uma luta por uma experiência totalmente nova de realidade (experiência que no fundo é a mais antiga e religiosa possível).

 

A luxúria e o adultério não poderão ser moralmente condenáveis, desde que se dêem entre adultos conscientes e no exercício de suas vontades. Que sejam profundos, significativos e não prejudiciais, e que se baseiem no amor, ou seja, no reconhecimento da pessoa do outro.

 

O amor romântico é apenas uma doce resposta enganadora endereçada ao mundo árido e tecnologizado.

 

O código moral funciona como uma bigorna e a crise individual como um martelo.

 

A análise preocupa-se com o desenvolvimento do amor, dos eros e da sexualidade no nível interior do próprio indivíduo.

 

O próprio desenvolvimento da personalidade impõe normas ao ego.

 

A sombra arquetípica não atinge realidade concreta até conseguir unir-se ao humano por meio de um pacto.

 

O orgulho é, analiticamente considerado, a negação da sombra pessoal e o fascínio pelo ofuscamento da luz individual.

 

A feminilidade interior: a realidade da anima e a religião

 

O reprimido sempre retorna.

 

O Espírito Santo, atualmente concebido como outro aspecto masculino da Trindade, tem por imagem, mesmo enquanto espírito de Deus, uma pomba, símbolo anteriormente relacionado com Afrodite, significando ao longo de todo o mundo antigo o Amor e a deusa que o inspira.

 

E porque esse momento religioso requer um ânimo passivo às intenções de Deus, um estado receptivo à Vontade Divina e à experiência de um ferimento que nos possa abrir, é que ele é feminino em sua natureza.

 

As paisagens bucólicas de um “caso” são uma das maneiras de evitar a esterilidade opressiva do casamento.

 

Isto está especialmente reservado para aqueles casais nos quais cada membro se encaixa perfeitamente nas partes falhas do outro. No casamento duas metades não fazem um inteiro.

 

A fase posterior à fantasia é a imaginação, isto é, o trabalho de transformar devaneios e fantasias em espaços cênicos interiores, onde se pode entrar, e que estão povoados de figuras vívidas, com as quais se pode falar e conversar, sentindo e tocando-lhes a presença. O trabalho de converter fantasia em imaginação é a base de todas as artes.

 

Ame o seu destino a ponto de desejar permanecer sempre nessa conexão interna vívida com o seu próprio legado individual.

 

Sempre que o físico é desvalorizado, algum mal está sendo feito contra a dimensão feminina. Esta transformação diz respeito, portanto, ao amadurecimento do corpo dentro da carne que vai envelhecendo.

 

A análise se encaminha para a verdade maior da coerência, para insinuações de imortalidade e para descobrir como minha pessoa cabe no esquema mais amplo do destino.

 

Celso Cruz

 

Reflexões deste conteúdo é do psicólogo James Hillman

 

Grupo Apoema



Autor:
admin
Data:
quarta-feira, setembro 24th, 2008 ás 9:00
Categoria:
Clínica Apoema
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