O homem de lata busca apenas o coração, o seu destino.
Vamos iniciar refletindo esta frase de John Keats:
“Só sei da santidade das afeições do coração e da verdade da imaginação”.
A imaginação traz a oportunidade da vivência, do sentir e do existir. Ela transmite o significado, mas não a resposta.
Ver é crer – crer no que se vê – e isso confere credibilidade imediata ao objeto de sua visão. O dom da visão transcende os dons da intravisão. Pois a visão abençoa, faz um trabalho de transformação.
A terapia promove a grande ilusão da intravisão. Ela preconiza e pratica a cegueira de Édipo, que fez perguntas para saber quem ele realmente era, como se a pessoa pudesse descobrir a verdade de seu ser através do autoquestionamento reflexivo. Esta falácia terapêutica baseia-se em outra: a de que não se vê o Ser, que ele foi escondido na infância, reprimido, esquecido, e portanto só pode ser redimido por uma introspecção ativa no espelho da mente. Os espelhos, porém, só dizem meias verdades. No espelho, seu rosto é apenas a metade do que na verdade é, metade do que é apresentado e os outros vêem.
Você é um fenômeno exibido. “Ser” é, antes de qualquer coisa, ser visível. Deixamo-nos passivamente ser vistos abre a possibilidade da bênção. Então procuramos amantes e mentores e amigos para podermos ser vistos, e abençoados.
A sua realidade como pessoa é só a que está em sua imagem do coração. O mentor (terapeuta, professor, pastor, líder etc.) percebe as imbricações de uma complexidade e essas confusas curvas de implicação que são a verdade de toda a imaginação, permitindo-nos dizer que uma imagem é o como completo de uma apresentação. Aqui estou eu, diante de seus olhos. A imagem que um mentor detecta, então, não é só fachada, nem tampouco o que está encoberto.
O olho do coração enxerga o que faz cada um Ser o que é e é afetado por isto. Os afetos do coração percebem as particularidades. Emocionamo-nos com essa imagem única: numa sala de aula cheia de crianças, somente o aquela pequena criança com sua característica nos deixa de queixo caído.
Mas ver alguém em termos de irlandês ou alemão, evangélico ou católico, preto ou branco, alcoólatra ou suicida, vítima ou marginal é ver conceitos de classe, não a pessoa em si. Para ver o Ser é preciso ter um olho para a imagem do coração, um olho para o que se mostra, e as palavras para dizer o que se vê.
Como as pessoas são é quem elas são, e não o que a tipificação e a classificação dizem que elas são.
Algumas terapias tentam corrigir a miopia imaginativa promovendo a “empatia” e a “identificação contratransferencial sintônica”. Elas também estimulam o psicodrama e a representação a fim de capacitar as pessoas a se abstraírem das tipificações e verem o coração do outro.
A percepção imaginativa exige paciência. Como os alquimistas diziam de suas experiências trabalhosas e frustrantes, “Em sua paciência está sua alma.” De que outra forma enfrentar a incompreensão, a esquisitice, a lerdeza do outro?
Dislexia, atraso crônico, intratabilidade, hiperatividade constituem o “distúrbio da deficiência de atenção” – e exigem paciência. No entanto, de que outra forma conter e extravasar o que esta “deficiência” também mostra? As crianças e os adultos assim classificados muitas vezes são aquelas pessoas com inteligência acima da média, dadas a fantasias, e com almas tão sensíveis e abertas que o comportamento de seu “ego” é indócil e desorganizado. Ritalin, Prozac e Xamax obviamente funcionam. Mas o fato de combaterem a deficiência não confirma sua causa nem revela seu significado. Muletas funcionam, mas não podem explicar sua perna quebrada. Por que este distúrbio é tão comum atualmente? Em que a alma não quer prestar atenção, e o que o daimon (nosso anjo do destino) estará fazendo quando não está lendo, nem falando, nem tendo o desempenho esperado? Descobrir isso exige paciência, e a percepção imaginativa descreve como “um vôo prolongado sobre o caso exposto”.
“Ser é ser percebido”, disse o filósofo irlandês. Existimos e damos existência por meio da percepção. Berkeley (1685-1753) dizia que a onisciência da percepção divina mantém todas as coisas. Para um moralista – e Berkeley era bispo – isso poderia significar que a pessoa nunca deixa de estar sob as vistas de Deus, portanto, é melhor ser boa! Para um metafísico, “Esse é percipi” poderia significar que, se Deus cochilar, piscar por um instante sequer, ou se distrair com problemas em outro cosmo, nosso ser deste mundo cai no nada.
Finalizando, a percepção abençoa! A percepção dá à luz o Ser de tudo o que é percebido e o mantém. E quando a percepção vê “na santidade dos afetos do coração”, revelam-se coisas que provam a verdade da imagem do coração.
Celso Cruz
Reflexão extraída do psicólogo James Hillman
Grupo Apoema
