Todos devem ter um amigo, um chefe, conhecido ou irmão que tem a arte da estória, a arte da mentira. Aquele que consegue sorratear de maneira magnífica até os mais competentes investigadores, de uma maneira dramática e bastante convincente. Os mentirosos compulsivos que não conseguem falar a realidade que vivenciam e produzem a sua própria com criatividade e veracidade imaginária.
A psiquiatria tem um termo antigo, pseudologia fantástica, que continua adequado à invenção de estórias que nunca aconteceram de fato e que é interessante para o ouvinte. Estas estórias pertencem à categoria dos distúrbios factuais, isto é, comportamentos não reais, genuínos ou naturais. Em formas extremas, revelam compulsão patológica a mentira. Quando os disfarces e as invenções assumem uma forma predominantemente física de doenças fingidas que acarretam hospitalizações desnecessárias, o distúrbio é chamado de Síndrome de Munchausen, por causa do personagem de ficção, o barão que contava estórias maravilhosas e aparecia sob muitos disfarces com grande instinto dramático.
Um exemplo mais corriqueiro, que todo mundo encontra em seu círculo de relações, é o bêbado inveterado que preenche as lacunas de sua memória com fabulações complicadas. Mas até crianças com cérebros em perfeita ordem fabulam, por isso é sabido que não servem como testemunhas num tribunal. Todos estes fenômenos pertencem a uma zona incerta da psicologia, onde dois mundos se chocam: o dos fatos e o da fábula. A psiquiatria interpreta a fábula como mentira fictícia, patologia.
A fábula claramente quer predominar nestas figuras exemplares que contam estórias exageradas, como se as ficções biográficas, os disfarces e as negações quisessem dizer: “Não sou os seus fatos. Não deixarei que o que eu tenho de estranho, de mistério seja colocado em um mundo factual. Preciso inventar um mundo que apresente uma ilusão mais verdadeira de quem eu sou do que as ‘realidades’ sociais e ambientais. Além do mais, eu não minto nem invento: as fabulações ocorrem espontaneamente. Não podem me chamar de mentiroso, pois as estórias que saem de mim a meu respeito não são propriamente eu falando”.
Se refletirmos, nós temos um universo paralelo, um “eu” que nos acompanha desde de pequeno, que interpreta o ambiente e nossos comportamentos de maneiras diferenciadas. É como estar jogando uma pelada e se tornar um grande jogador de futebol, tentando imitar os dribles e a habilidade. Estar em uma entrevista de emprego e ser um grande executivo, mas sem ter experiência nenhuma. Ser um escritor tendo os sonhos de cada personagem, ver um filme e se tornar o mocinho. Este outro “eu” é o nosso anjo protetor e o nosso caminho, é aquele que carrega o sonho de realização que, muitas das vezes, não conseguimos concretizar, podendo se tornar nossa maldição e nos levar a não enfrentar os fatos cotidianos, nos colocando como alienados do mundo.
Os esquimós falam de outra alma, seja ela interna, dentro do mesmo corpo, seja externa, que vai e vem, pousa e se vai, habita coisas, lugares e animais. Os antropólogos que convivem com os aborígines australianos chamam esta segunda alma de alma-do-mato.
Então, existe alguém que é o seu gêmeo, seu alter-ego, sua sombra, que é exatamente igual a você, e às vezes parece estar a seu lado e ser seu outro “eu”. Este “outro” caminha com você e pode falar por você, criar e vivenciar a sua vida. Aqui onde pode surgir o mentiroso compulsivo que não consegue descrever a realidade sem o toque da imaginação, sem a presença deste outro “eu” que o acompanha, podendo ser até este “outro” o locutor da estória.
Como a criança com o seu amiguinho imaginário, o executivo com o dinheiro invisível, o político com as promessas não cumpríveis, este desejo de estar uma escala maior, de ser o que se espera de si mesmo e do mundo e não estar preocupado com o fato, o mentiroso se torna um ilusionista cativando a alma de quem o ouvi e deslumbrando os corações de quem o escuta.
Celso Cruz
Fragmentos do texto foi retirado do Livro “O Código do Ser”, de James Hillman
Grupo Apoema
