Daniel – Mais que um Vencedor
Os textos são limitados,
como as palavras são limitadas
por aqueles que as pronunciam.
Neste texto estaremos conversando sobre a história relatada na bíblia de Daniel, um homem que demonstrou intimidade com Deus e comportamentos de excelência no caminho do aperfeiçoamento e desenvolvimento pessoal e profissional.
“No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou.” (Daniel 1:1). Aqui começa a consagração de Daniel em seu projeto de vida.
O rei Nabucodonosor queria aprender sobre a cultura e a sociedade de Jerusalém e solicitou que trouxesse “jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus” (Daniel 1:4).
Foram escolhidas pessoas estudas nas ciências da época e educadas pelas tradições da região, para o rei conhecer aquele povo no qual estava conquistando, conhecer as suas limitações e potencialidades, e as melhores formas de persuadi-los e envolvê-los nas disciplinas e credos babilônicos. Lembrem-se da história do Brasil, a catequização dos índios, onde estrangeiros estudaram a região, a cultura e a sociedade para melhor introduzi-los numa nova maneira de perceber o mundo. Hoje vemos isto no mercado consumidor, onde promovem propagandas e se criam necessidades, que antes não existiam, para a venda de ideologias, marcas e produtos.
O rei ofereceu comida, bebida e uma boa qualidade de vida durante três anos para os escolhidos e entre eles estavam Daniel. Daniel aceita a solicitação (acho que não teve muita escolha), mas, resolveu não usufruir das bondades do rei. “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se” (Daniel 1:8).
O que seria esta contaminação que Daniel prevenia-se? Será que a comida e a bebida do rei tinham alguma substância que poderia adoecer o corpo, infectá-lo, levando-o a padecer? Não. O que Daniel não queria contaminar era a sua Alma. A Alma carrega as crenças, a personalidade, o caráter, a cultura e a espiritualidade. Contaminá-la é influenciá-la de forma que mude as atitudes (conceitos, pensamentos, idéias) e, conseqüentemente, os comportamentos (ações) e tire do caminho que deve ser percorrido.
Uma diferenciação rápida entre caráter e personalidade: o caráter é o nosso “dom”, as características inatas que mostram o caminho, os potenciais e os desafios, o CHAMADO para o aperfeiçoamento individual na relação intima de realização com as benções divinas. E a personalidade desenvolve-se na relação do caráter com as vivências e experiências da vida. Aqui formam as dificuldades, transtornos e complexos que não nos permitem evoluir, os problemas psicológicos e emocionais que nos amarram e enrijecem a Alma, trazendo sofrimento e adoecimento. Neste momento, entra o trabalho do psicólogo, ajudando o paciente a desatar as amarras e libertá-lo para a realização de seu caráter na intimidade com Deus.
Daniel demonstra uma personalidade desprendida das neuroses e complexos, “esbranquiçada” pelo seu caráter que estava em profunda relação com Deus. Não queria que sua Alma fosse corrompida pelos luxos, confortos e prazeres. Agora, caro leitor, no nosso cotidiano, você conhece pessoas que mudam suas atitudes e comportamentos por propostas de enriquecimento, poder e facilidades para a sua rotina? Estas pessoas são dignas de confiança? Você consegue confiar em suas palavras e percepções do mundo? Acredito que sua resposta seja “não”. Estas pessoas estão, muitas das vezes, presas em suas “agonias” na personalidade, como os complexos de superioridade ou de inferioridade, complexos que minam a fé no mundo melhor para todos. A cobiça, o egoísmo exagerado, a falta de amor e a incompreensão, ações que fragiliza a excelência e a qualidade no contato consigo mesmo e com o próximo.
“… mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos” (Daniel 1:17).
O caráter de Daniel, o seu “dom”, é ver e decifrar os enigmas do futuro e a simbologia profunda da Alma, onde estão os segredos que abençoam, trazendo o autoconhecimento e a autoconscientização.
Daniel teve a oportunidade de mostrar o seu “dom” diante um sonho de Nabucodonosor. “Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder” (Daniel 2:20). Com o desafio lançado e a solução do enigma em suas mãos, Daniel agradeceu a permissão de Deus para conseguir decifrar o sonho do rei. Pela luz levada a escuridão se confirmou as graças da visão. Daniel agradeceu pelo seu “dom”. Mesmo com todo o conhecimento adquirido por meio dos estudos, pela a ciência, ele carregava em sua Alma o diferencial, o que o fez tornar-se o homem que era. E agradecer por carregar esta cruz, pois todo o “dom” vem com os seus sacrifícios, é onde Daniel demonstrou a humildade, a lealdade e a sua personalidade reta e disciplinada pelo amor. Mesmo com toda a sua competência e conhecimento, não se tornou soberbo e independente. Pelo contrário, mostrou que era pequeno e dependente de Deus, sabendo que “é Ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; Ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes” (Daniel 2:21).
Os índios brasileiros tinham uma expressão que significava “o homem que enxerga longe”, que era Apoema ou Apoena. Para eles existiam pessoas que poderiam ver além do que estava em sua frente, enxergar as entrelinhas e o futuro, perceber de forma holística e sistêmica o ambiente. Assim acontecia com Daniel. “Ele (Deus) revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz” (Daniel 2:22).
Para entendermos mais sobre a personalidade de Daniel, vejamos esta passagem: “E a mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses as cogitações da tua mente” (Daniel 2:30). Fico sinceramente emocionado com a sensibilidade de Daniel. Ele dizia que o “dom” que possuía não existia para servi-lo e, sim, para servir o próximo. Dizia que não era diferente de ninguém e o que estava fazendo naquele momento era simplesmente servir o rei, para que entendesse o que agonizava o seu sono. É uma demonstração de integridade e honra, respeito e honestidade.
Existem pessoas que utilizam o conhecimento para unicamente benefícios próprios. Que qualquer oportunidade tenta colocar-se como superior às outras pessoas tirando vantagens e julgando o outro de forma impiedosa. Daniel poderia usar o seu “dom” para vangloriar e controlar, inferiorizar o portador do sofrimento ou tentar retirar algo dele. Mas, o que fez, foi informar, explicar, ajudar o rei a compreender os símbolos de sua Alma, fornecendo a oportunidade de conhecer o que estava em sua profundeza.
Deus nos deu os nossos “dons” para que possamos servir o próximo e, assim, poder aperfeiçoar no amor universal que se transparece na interdependência de cada ser aqui na terra, nós não vivemos sem o outro.
“Ó rei! Deus, o Altíssimo, deu a Nabucodonosor, teu pai, o reino e grandeza, glória e majestade” (Daniel 5:18). Daniel explica ao rei Belsazar o que aconteceu a seu pai. “Quando, porém, o seu coração se elevou, e o seu espírito se tornou soberbo e arrogante, foi derribado do seu trono real, e passou dele a sua glória” (Daniel 5:20).
Os sofrimentos surgem para que possamos perceber quem realmente somos e as falhas que estamos cometendo.
O nosso “dom” serve a Deus e ao próximo, não a nosso Ego (Eu). Quando ele muda a sua energia para o Ego, tornando-se egocêntrico, se faz necessário o enfrentamento (sofrimento/adoecer) para direcionar novamente a energia para o caminho, que é para o Self (Deus interior), este caminho nos leva a realização da Alma na inspiração Espiritual que vem de nosso Pai. É importante que a relação entre a Alma e o Espírito se torne constante e para isto devemos nos disciplinar por meio da adoração ao Pai, sendo fiel e sensível, aperfeiçoando na honra e glória.
Você deve pensar que esta ação é muito difícil diante a dinâmica social que estamos vivenciando atualmente, mas Daniel conseguiu vivendo quase na mesma sociedade autoritária, vestida de prazeres imediatos e ilusões de poder e grandeza. Daniel esteve diante Babilônia e todos os seus deuses, como nós diante o Sistema Atual, com todos os deuses como dinheiro, vaidade, poder, luxo, competitividade etc. Os invisíveis como a economia, política e religião estão aqui como estavam na Babilônia. Uns dos diferenciais de Daniel para se transformar em um ser de excelência foi ter conseguido enfrentar de forma sincera e direta esta realidade. Ele tinha os seus conceitos e agia de acordo com eles, não dissimulava. Algo que acontece muito nos dias de hoje: a pessoa diz uma coisa e faz outra.
“Tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o coração, ainda que sabias tudo isto” (Daniel 5:22). Humilhar o coração é, para mim, a expressão mais forte deste texto. Humilhar o coração é enfrentar todas as camadas que criamos para nos proteger do mundo e até de nós mesmos. Imagine uma armadura que nos envolve para que não sejamos feridos, mas que também não nos permite abraçar por inteiro e sentir. As pessoas que desenvolveram esta “armadura”, muitas das vezes, vieram de sofrimentos traumatizantes, que “endureceram o coração” e não conseguiram mais permitir o fluir normal da energia para a realização de suas vidas. Retirar esta “armadura” é uma tarefa difícil, o indivíduo pensa que está o tempo todo em um campo de guerra e precisa se defender. O stress, o esgotamento mental, o cansaço corporal, a fadiga e o medo são alguns sintomas deste processo na dinâmica da personalidade, que deve ser cuidado de forma adequado, pois, podem desenvolver doenças como a depressão, transtorno do pânico, cardiovasculares e outras.
Daniel conheceu pessoas que carregavam estas “armaduras”: “Todos os presidentes do reino, os prefeitos e sátrapas, conselheiros e governadores concordaram em que o rei estabeleça um decreto e faça firme o interdito que todo homem que, por espaço de trinta dias, fizer petição a qualquer deus ou a qualquer homem e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões” (Daniel 6:7). O medo, a inveja e o ciúme são sintomas sociais que Daniel enfrentou. Por não terem encontrado falhas na sua personalidade, criaram uma situação que Daniel não poderia se submeter, que era ficar trinta dias sem adorar e relacionar com Deus. Daniel orava três vezes ao dia, “se punha de joelhos, e orava, e dava graça, diante do seu Deus, como costuma fazer” (Daniel 6:10). O rei, que agora era Dario, mesmo contrariado, enviou Daniel à cova dos leões, que foi salvo por um anjo que fechou a boca dos leões. O rei se alegrou e enviou para a cova as pessoas que acusaram Daniel e lançou-os juntamente com suas famílias. Na vida, existirão pessoas que tentarão contra você, que irão desejar a sua derrota. Mas, se você for integro com o seu destino (“dom”) e utilizá-lo para servir o próximo, estando em profunda intimidade com Deus, conhecendo e utilizando de forma correta a “armadura” e sendo o que você é, descanse, pois terá anjos te protegendo.
“Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que estavam comigo nada viram; não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam” (Daniel 10:7). Quem não vivencia em sua Alma a presença de Deus e o seu poder teme o desconhecido e o invisível. Temos que educar nossa Alma para recebermos o Espírito Santo e honrá-lo por meio de nosso “dom”.
Aceite como você é, humilhe-se em seu coração, cure e eduque a sua personalidade e transforme a sua Alma para Deus, enfrente os desejos e seus demônios (complexos), transcenda a percepção limitada de teus olhos e enxergue mais profundo e longe. Seja em suas ações mais que um vencedor. Permita encontrar-se com Deus que vive e está com você. “Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas, sempre e eternamente” (Daniel 12:3).
Viva em excelência.
Leia a Bíblia e descubra o Novo Mundo.
Obrigado Pai por permitir este momento em minha vida.
Amém.
Celso Cruz
Grupo Apoema
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