Escutar a Alma

A nova cultura maníaca desenvolvida para suprir os nossos desejos imediatos, as pessoas com a personalidade “feet-foot”, o dinheiro digital, a megalomania do cartão de credito, o medo da frustração, a constante busca do sucesso, o vazio titânico, a falta de poesia na vida. Esta nova constituição e dinâmica da vida urbana, que nos leva a suspiros silenciosos em momentos solitários, quando resolvemos desligar a televisão, computador, o toca CD chinês e fechamos a janela do apartamento para não escutar o som caótico do transito. Este suspiro pela falta de ar, pela falta de sentido e significado de vida, penetra em nossa alma nua e sem cor.

 

Quantas vezes já puderam presenciar, executivos e empresários, baterem na mesa e dizerem que iriam realizar alguma coisa, custe o que custar. Não importa quem deva perecer, quantas pessoas estão envolvidas. O ego inflado do herói conquistador, que pode tudo, menos morrer por um ideal. Tem todas as soluções para salvar o mundo e, quem os cercam, tem que estar sempre à disposição de seus impulsos.

 

Na clínica, já apareceram pacientes que sabiam o que deveriam fazer para resolver seus problemas e complexos, muitos até tentaram me ajudar com supostas dificuldades que eu estava passando. O engraçado é que eles me diagnosticavam no “olhômetro”. Mortalmente os perguntavam: “O que mesmo querem aqui?”

 

Este Mundo Novo sem limites, subjetivos e comerciais, vida Big-Broders, onde o deus maior é Cronos, o devorador. O tempo passa tão rápido, a pele envelhece mapeando a ansiedade, a angustia de estar envelhecendo e perceber que ainda resta tanto e falta tão pouco. Bendita clínica de estética que se tornou nossa realidade. Não tem essência, tudo é superficial. A imagem de um buraco na estrada, e o carro sempre em alta velocidade.

 

Lembro de meu avô, quando nós íamos pescar na represa. Eu, ainda como um jovem, rodeava a represa, inquieto, não conseguia ficar muito tempo em um local, com a vara de pescar. Sempre em busca dos peixes. Meu avô, sentado numa pequena pedra, olhando para a água em movimento, fumando o cigarrinho de palha pacientemente, pegava vários peixes. Quando dei a volta completa na represa e não pequei nenhum peixe, perguntei ao vô: “como o Sr. consegue pegar tantos peixes? Eu andei em torno da represa toda e não peguei nenhum”. Ele respondeu olhando nos olhos: “você não ouve os peixes”.

 

O que existe no profundo precisa ser chamado para que se apresente. Precisa de uma vara de pescar para servir de instrumento de contato e, principalmente, de ouvir, parar para escutar o que nós temos guardado no peito, que tanto nos sufoca. Dar a oportunidade de nossa alma falar. Ficou tão pequena diante nossa inquietude titânica, que nem seu grito de desespero escutamos. Assim vem as drogas, os ansiolíticos, os antidepressivos, a bebida. O auto-destrutivo da sombra social, “beber, cair e levantar”.

 

Celso Cruz

 

Grupo Apoema 

 

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One Response to Escutar a Alma

  1. Luiza says:

    Parabéns! Ótimo texto, ótima percepção.

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