Atividade Física para Mulher Gestante
Introdução
A gestação é o período de tempo em que se desenvolve o embrião no útero, desde a concepção até ao nascimento. A mulher grávida altera o seu sistema corpóreo, possibilitando o desenvolvimento e crescimento do embrião. Este, podendo ser, o maior desafio físico que a média das mulheres enfrenta durante seu período de vida e na sua imensa maioria as mulheres não estão muscularmente preparadas para suportar as tensões da gravidez e do parto.
É definida a atividade física como qualquer movimento corporal decorrente de contração muscular, com dispêndio energético acima do repouso que, em última análise, permite o aumento da força física, flexibilidade do corpo e maior resistência, com mudanças, seja no campo da composição corporal ou de performance desportiva.
Perceber as melhorias na saúde e na qualidade de vida das gestantes através dos exercícios físicos é uma oportunidade de refletir sobre este momento da mulher e proporcionar um estilo de vida mais ativo, integrando componentes e determinantes de ordem biológica e psico-sócio-cultural, sendo o objetivo do artigo demonstrar algumas pesquisas realizadas nesta área.
Desenvolvimento
O corpo de uma mulher grávida está em processo de transformação, durante os nove meses de gestação, a mulher terá de aumentar sua capacidade cardio-respiratória, lidar com uma carga elevada do hormônio progesterona, adaptar seu centro de equilíbrio e sua coluna vertebral ao crescimento do feto, do útero e da barriga que vai surgindo e preparar-se para o momento do parto e somando a ansiedade com a chegada da criança.
Apesar de ainda existirem poucos estudos nesta área, exercícios de intensidade leve a moderada podem promover melhora na resistência e flexibilidade muscular, sem aumento no risco de lesões, complicações na gestação ou relativas ao peso do feto ao nascer. A mulher praticante de exercício físico pode suportar melhor o aumento de peso e atenuar as alterações posturais decorrentes desse período, diz as pesquisadoras do HC-FMUSP, Lima e Oliveira (2008), em seu artigo Gravidez e Exercício .
Com o crescente aumento de mulheres que praticam exercícios fiscos e esportes de forma regular, está surgindo um consenso geral na literatura científica de que a manutenção de exercícios de intensidade moderada durante uma gravidez não-complicada proporciona inúmeros benefícios para a saúde da mulher. Mas, os pesquisadores da Saint Louis University School of Public Health (2005) descobriram que mulheres grávidas não eram tão ativas quanto mulheres não grávidas. Eles analisaram os dados de mais de 150.000 mulheres grávidas e não-grávidas, que foram entrevistadas por telefone em 1994, 1996, 1998 e 2000.
Lopes (n.d.) explique que,
Hoje, sabe-se que a atividade física bem orientada diminui as complicações obstétricas, ajuda a prevenir o diabetes gestacional e a hipertensão arterial, evita problemas como dores lombares e inchaços, reduz o risco de parto prematuro e pode contribuir para um trabalho de parto mais rápido e tranqüilo.
A atividade física auxilia de forma significativa no controle do peso e na manutenção do condicionamento, além de reduzir riscos de diabetes gestacional, condição que afeta 5% das gestantes. Lopes confirma que há a melhoria da capacidade cardiorrespiratória trazida pela atividade física, que deixa coração, pulmões e sistema circulatório mais preparados para a sobrecarga física natural da gravidez. O exercício contribui ainda para o aproveitamento da glicose pelo corpo através da ativação dos grandes grupos musculares, propiciando uma melhor utilização da glicose e aumentando simultaneamente a sensibilidade à insulina – o que reduz a possibilidade dos diabetes – e estimula a circulação sangüínea, diminuindo a chance de inchaços. Também reforça musculaturas importantes para a grávida, como a abdominal, fundamental para ajudar a expulsar o bebê na hora do parto, e a lombar, que fica sobrecarregada pelo peso da barriga e, se não for trabalhada, pode causar dores nas costas.
No artigo de Lima e Oliveira (2008) diz que os estudos nesta área também mostram que a manutenção da prática regular de exercícios físicos ou esporte apresenta fatores protetores sobre a saúde mental e emocional da mulher durante e depois da gravidez. Além disso, existem dados sugestivos de que a prática de exercício físico durante a gravidez exerce proteção contra a depressão puerperal.
Além das melhorias generalizadas que proporcionam à saúde da mulher, por certo os exercícios têm efeito favorável no desenvolvimento pré-natal da criança e, também, reduzem os perigos de complicações circulatórias e cardíacas à mulher. Mesmo as mães mais jovens sofrem dores severas e crônicas na região lombar. O Artigo publicado no Jornal da Associação Médica Americana, foi demonstrado que a falta de exercícios entre mulheres de 18 a 23 anos de idade é a mais freqüente causa das agudas dores nas costas, durante e depois do período de gravidez. E, praticamente todas as mulheres grávidas experimentam algum desconforto musculoesquelético durante a gravidez. Estima-se que cerca de 25% delas apresentem ao menos sintomas temporários. Lima e Oliveira (2008) afirmam que as mulheres grávidas apresentam um rico aumentado de queixas musculoesquelétivas, principalmente lombalgia. A mudança do centro de gravidade, a rotação anterior da pelve, o aumento da lordose lombar e o aumento da elasticidade ligamentar são os principais responsáveis pelos sintomas. Há estudos que demonstraram que um programa de exercícios executados três vezes por semana durante a segunda metade da gravidez parece colaborar na redução da intensidade das dores lombares, aumentando também a flexibilidade da coluna. Na literatura também encontra estudos envolvendo exercícios para a musculatura pélvica durante a gravidez, afirmando os benefícios deste tipo específico de exercício como forma de prevenção à incontinência urinária associada à gravidez.
Percebe-se que o exercício físico tem como objetivo não apenas manter o peso ou a boa forma da gestante, mas como explica Romani (n.d.), coordenador de Atividade Física do Fleury,
Exercício até pode ajudar a grávida a controlar melhor o ganho de peso durante a gestação, mas não deve ser praticado com o objetivo único de não engordar. Mulheres que já praticavam exercícios podem continuar, desde que numa intensidade mais baixa. Mas aquelas que eram sedentárias devem começar com exercícios mais leves, de baixo impacto.
As mulheres grávidas devem trabalhar com uma margem de segurança, evitando os riscos e os exageros. Romani (n.d.) presa bastante os cuidados com as gestantes, pois, a prática de exercícios acarreta riscos potenciais para o feto, podendo gerar estresse fetal, restrição de crescimento intra-uterino e prematuridade. Há algumas evidências de que a prática de exercícios intensos e com grande freqüência, mantidos por longos períodos da gravidez, possam resultar em crianças com baixo peso. Mas, estas situações ocorrem com o não acompanhamento adequado do exercício físico.
Para Batista et al (n.d.) alguns exercícios merecem recomendações especiais sobre o desenvolvimento de sua prática ou contra-indicação neste período. A intensidade do exercício deve ser monitorada de acordo com os sintomas que a gestante apresentar. Batista et al (n.d.) diz que a intensidade se revela através da demanda sobre o sistema cardiovascular.
Em seu artigo apresenta alguns exercícios físicos e/ou situações não recomendadas para a prática durante o período gestacional:
a) qualquer atividade competitiva, artes marciais ou levantamento de peso;
b) exercícios com movimentos repentinos ou de saltos, que podem levar a lesão articular;
c) flexão ou extensão profunda deve ser evitada, pois, os tecidos conjuntivos já apresentam frouxidão; exercícios exaustivos e/ou que necessitam de equilíbrio principalmente no terceiro trimestre;
d) basquetebol e qualquer outro tipo de jogo com bolas que possam causar trauma abdominal;
e) pratica de mergulho (condições hiperbáricas levam a risco de embolia fetal quando ocorre a des-compressão);
f) qualquer tipo de ginástica aeróbica, corrida ou atividades em elevada altitude são contra-indicadas ou, excepcionalmente aceitas com limitações, dependendo das condições físicas da gestante;
g) exercícios na posição supino após o terceiro trimestre podem resultar em obstrução do retorno venoso.
Sabe-se que, apesar de se verificar uma diminuição do oxigênio fetal e da disponibilidade de carboidratos durante o exercício, esta redução é acompanhada de adaptações fisiológicas, como o aumento da extração de oxigênio, redistribuição intra-uterina e hemoconcentração, relata em seu artigo escrito para a Faculdade de Medicina de Lisboa, Gouveia et al (2007). Continua dizendo que alguns estudos mostram que um programa de exercício físico de moderada intensidade, iniciado numa fase precoce da gravidez, durante a fase hiperplásica do crescimento placentar, pode aumentar a capacidade funcional da placenta, aumentando a distribuição de nutrientes e assim o crescimento fetal. Não parece existir evidência que o exercício aumente a temperatura da mãe a níveis prejudiciais para o feto, como se supunha.
No estudo efetuado por Gouveia et al (2007),
“Tal como outros autores encontramos uma relação positiva entre a maior escolaridade da mãe e a prática de exercício durante a gravidez. No entanto, verificamos que a prática de exercício era mais freqüente entre os 25-34 anos, enquanto noutros estudos é referida maior freqüência nas mães mais velhas. Embora não tenhamos questionado o rendimento das mães, verificamos que as mães empregadas realizavam mais frequentemente exercício, o que parece ser concordante com outros estudos em que se encontrou uma relação positiva entre o rendimento e a prática de exercício. Não se encontrou neste estudo correlação significativa entre a prática desportiva e a etnia ou estado civil, contudo, alguns autores verificaram maior freqüência de exercício nas caucasianas”.
Lima e Oliveira (2008) relacionaram as contra-indicações de exercício físico durante a gravidez para as mulheres que sofrem as seguintes complicações:
- Contra-indicações absolutas
- Doença miocárdica descompensada
- Insuficiência cardíaca congestiva
- Tromboflebite
- Embolia pulmonar recente
- Doença infecciosa aguda
- Risco de parto prematuro
- Sangramento uterino
- Isoimunização grave
- Doença hipertensiva descompensada
- Suspeita de estresse fetal
- Paciente sem acompanhamento pré-natal
E contra-indicações relativas:
- Hipertensão essencial
- Anemia
- Doenças tireoidianas
- Diabetes mellitus descompensado
- Obesidade mórbida
- Histórico de sedentarismo extremo
As descobertas suportam um artigo de Artal (2005), principal autor das “Recomendações para exercícios durante a gravidez - 2002″, do College of Obstetrics and Gynecology e chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia da Saint Louis University. Disse que poucos colegas obstetras encorajam suas pacientes saudáveis a praticar exercícios durante a gravidez. “A hesitação dos obstetras recomendarem exercícios durante a gravidez tem suas raízes em uma visão antiquada da gravidez como um período de confinamento”, afirma Artal (2005).
Conclusão
Exercícios físicos regulares durante a gravidez parecem melhorar ou manter a capacidade física e a boa imagem corporal. Entretanto, os dados ainda são insuficientes para esclarecer os possíveis riscos e benefícios para a mãe e o recém-nascido, não existindo consenso no estabelecimento da conduta ideal ou qualquer tipo de padronização para essa prática.
Na literatura pesquisada cada autor estabeleceu o tipo de atividade de interesse no estudo, sua duração, intensidade e freqüência, dificultando assim a comparação dos resultados encontrados nos diferentes artigos. Todavia, tendo por base a revisão, concluiu-se que quando indicada, a prática de atividade física regular, moderada, controlada e orientada pode produzir efeitos benéficos sobre a saúde da gestante e do feto, trazendo qualidade de vida. E para que aja a prática dos exercícios as gestantes devem ser avaliadas antes de iniciarem qualquer atividade física por profissionais especializados.
Assim, percebe-se a importância do papel dos profissionais de saúde no processo educativo e prático, com informações e acompanhamento dos exercícios físicos.
Referencias Bibliográficas
Lima, Fernanda R. e Oliveira, Natália. Gravidez e Exercício. Sociedade Brasileira de Reumatologia 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&p id=S0482-50042005000300018> Acesso em: 10 out. 2008.
Lopes, Marco Antonio Borges. Cuidados com a mulher grávida. IPASEP (n.d.). Disponível em: <http://www.ipasep.pa.gov.br/art_110308.cfm> Acesso em: 10 out. 2008.
Romani, Renato. Cuidados com a mulher grávida. IPASEP (n.d.). Disponível em: <http://www.ipasep.pa.gov.br/art_110308.cfm> Acesso em: 10 out 2008.
Batista, Daniele Costa; Chiara, Vera Lucia; Gugelmin, Sílvia Ângela; Martins, Patrícia Dias. Atividade física e gestação: saúde da gestante não atleta e crescimento fetal. NOME DA REVISTA SCIELO (n.d.). Disponível em: <http://www.scielo. br/scielo.php?pid=S151938292003000200004&script=sci_arttext&tlng=es> Acesso em: 10 out. 2008.
Gouveia, Raquel; Martins, Sara; Sandes, Ana Rita; Nascimento, Catarina; Figueira, Joana; Valente, Sandra; Correia, Susana; Rocha, Evangelista; Silva, Lincoln J. Silva. Gravidez e Exercício Físico – Mitos, Evidências e Recomendações. Acta Méd Port 2007. Disponível em: <http://www.actamedicaportuguesa.com/pdf/2007-20/3/209-214.pdf> Acesso em: 10 out. 2008.
Artal, Raul. Mulheres grávidas não se exercitam o suficiente. Medicine & Science in Sports & Exercise 2005. Disponível em: <http://www.emedix. com.br/not/not2005/05nov08obs-msse-pwd-exercicio.php> Acesso em: 10 out. 2008.
Artigo realizado por universitárias da FAFICH
Grupo Apoema
